A flor embeleza ambientes, é bem-vinda em qualquer ocasião e época do ano e está associada ao nosso bem-estar há milênios

por   Loraine Luz

Ipês em diferentes tons, três-marias (bougainvillea) e jacarandás se exibem por ruas, calçadas e jardins de Porto Alegre. Aos poucos, outras espécies vão despertando após meses em estado latente, e todas juntas anunciam de forma silenciosa, porém vistosa e perfumada, que o pior já passou. Não é à toa que a primavera é uma estação associada à renovação e ao renascimento. Ela termina hoje, mas deixa seu colorido e sua energia em nossas vidas para começarmos bem o novo ano.

Bougainvillea em suas cores

Existem plantas mais resistentes ao frio, cujas flores dão as caras no inverno, mas elas não são a maioria. Portanto, a partir de final de agosto e início de setembro, as condições climáticas vão se tornando mais e mais propícias ao espetáculo de cores e formas preparado paciente e sabiamente pela natureza e seus ciclos. As baixas temperaturas inibem a produção de substâncias responsáveis pelo florescimento – as plantas “dormem”, economizando energia –, bem como a ação dos agentes polinizadores (insetos e pássaros, por exemplo) e quando acordam tomam conta das ruas, mostrando seu encanto.

CICLOS DA NATUREZA

Na primavera os dias vão se tornando mais longos, rumo ao verão. É a hora e a vez daquela porção da natureza que precisa de mais tempo sob sol, diariamente, para exibir todo o seu esplendor. Não existe apenas um fator determinante para o início do florescimento, porém, é certo que o calor e as horas de sol do dia estão entre os principais.

Um viva para os ipês, os jacarandás e as três-marias! (Essas são os tipos mais comuns por aqui, nas ruas da Capital; e na sua cidade, como é?) E xô para o baixo-astral e o mimimi que a paisagem cinza e desbotada de um inverno carrancudo acaba deixando. Após esta primavera colorida, estamos energizados para encarrar as altas temperaturas que estão por vir.

Atraída pelos efeitos prazerosos da existência e proximidade de flores, a humanidade cultiva espécies há milhares de anos (há registros de cultivos de rosas na Mesopotâmia, 5.000 a.C). Elas estão em ritos de fé, entre ateus, em canções, em poemas, na arte, nos nossos jardins e casas. Virou atividade, a floricultura (prática que chegou ao Brasil no século 19). O mercado de plantas ornamentais tem, hoje, conhecimento e tecnologia capazes de produzir lindezas em estufas, independentemente do clima lá fora.

Enquanto a gente aprecia, planta, colhe, compra, dá de presente, traz para casa, decora, enfeita, se beneficia com fórmulas de beleza, medicinais ou terapêuticas e até experimenta nas refeições, a natureza segue seus ciclos: a presença das flores é fundamental para a continuidade dessas espécies.

Nem todas as plantas têm flor – aquelas com essa característica são as angiospermas, não por acaso o grupo mais numeroso na flora terrestre. Ter flor foi/é fundamental. Para a reprodução desse grupo, é necessário que o grão de pólen seja levado da parte masculina da flor até a parte feminina de outra – função de um agente polinizador.

Angiospermas

E aí o que faz a flor? Se monta, lindamente! Se enche de cor e perfume. É o visual e o odor que atraem o bichinho certo pra fazer o casamento. Dama da noite, outro exemplo, só libera perfume à noite porque o inseto responsável pela polinização dessas plantas é a mariposa – que costuma buscar seu alimento (néctar) no final da tarde e à noite.

 Dama da noite

Fontes: Rosana Farias Singer, bióloga, e Leandro dal Ri, engenheiro florestal, ambos do Jardim Botânico de Porto Alegre

 

 

ALGUMAS CURIOSIDADES DO RS

> As flores típicas do Estado, na primavera, são: corticeira-do-banhado e corticeira-da-serra (Erythrina), pitanga e cerejeira-do-mato (Eugenia), a cina-cina (Parkinsonia aculeata), bioma Pampa, jerivá (Syagrus romanzoffiana ) e timbauva (Enterolobium contortisiliquum).

Corticeira-do-banhado

> Brinco-de-princesa é a flor símbolo da cultura gaúcha por ocorrer naturalmente no RS, em regiões elevadas. Também pode ser encontrada da Bahia até Santa Catarina, nos domínios da Mata Atlântica e do Cerrado.

EMBELEZANDO AMBIENTES

A “fashion week” das flores

Os crisântemos com novas formas e colorações, como “Ipanema” e “Ligia”, a petúnia “Night Sky” (roxa com pigmentos brancos, remetendo a um céu estrelado) e a rosa inglesa, em que um único botão tem mais de cem pétalas, estão entre as novidades apresentadas durante a Expoflora 2018, a maior exposição de flores e plantas ornamentais da América Latina.

Realizada anualmente em Holambra (SP), o evento recebe 300 mil visitantes e atrai todas as atenções de floristas, decoradores, paisagistas e apaixonados por flores. Neste ano, congestionou a cidade de pouco mais de 14,4 mil habitantes, nos finais de semana de 24/8 a 23/9.

As alstresias (mistura de alstroemérias com frésias), as alstroemérias “Jumbo” e “Azul” e a rosa Bluez, com pétalas aveludadas em tom vermelho brilhante por dentro e com o lado externo todo branco, também atraiam a admiração dos visitantes. O evento reúne o que há de melhor nas fazendas de mais de 450 produtores.

 Alstroemérias

A principal atração da Expoflora são os arranjos florais, cuja mostra nesta edição prestou homenagem aos 70 anos da imigração holandesa no Brasil. Para mesas, para buffet, para hall de entrada, mesa de bolo e até aéreos, foram criados com o que é tendência e lançamento em flores e plantas ornamentais para as estações primavera-verão. Para a decoração, os artistas estimam que foram usados aproximadamente 2 mil vasos de flores e 272 mil hastes de mais de 3,5 mil variedades de cerca de 350 espécies diferentes.

No pavilhão da 14ª Mostra de Paisagismo e Decoração, que ocorre concomitantemente, paisagistas, arquitetos e decoradores montaram 19 ambientes com sugestões de como aplicar tanta beleza floral em ambientes de casa. Em comum, muito reaproveitamento de materiais e soluções sustentáveis, como pisos permeáveis para jardins e a aposta em piscinas/lagos naturais.

Outro grande evento na área é o Enflor – Encontro Nacional de Floristas, Atacadistas e Empresas de Acessórios em conjunto com a Garden Fair. Holambra também foi sede dele este ano, em julho, pela 27ª vez no caso do encontro e 15ª vez, a Fair. Não adianta: se o assunto é flor, o destino é essa cidade, na região metropolitana de Campinas, a 130 quilômetros da capital paulista. Holambra responde por 45% do mercado de flores do Brasil.

Seu nome é uma junção de Holanda, América e Brasil. A capital das flores no país começou com um grupo de holandeses, que fugiram da II Guerra Mundial em 1948. Uma vez na região, tentaram criar gado holandês, mas não deu certo. Então, se dedicaram ao que sabiam e amavam: cultivar flores – hoje um atrativo turístico. O ponto alto do turismo é conhecer os campos de produção, fazendas de extrema beleza, como as de crista de galo, gérberas e girassóis.

 

Todo este universo só nos beneficia no dia a dia para que possamos aproveitar cada flor da forma certa da nossa casa, confira:

 

COISA DE ARTISTA

O belga Daniel Ost é um dos mais festejados designers de flores do mundo. E, se você quer ter uma ideia do que é possível fazer quando as flores são tratadas como arte, valer espiar esses links!  O site e o instagram do artista.  

O florista ou designer floral é responsável por elaborar arranjos, ajudar a escolher as flores de acordo com a ocasião e a personalidade do cliente, levando em consideração as flores da época, o local e conhecimentos técnicos.

No Brasil , umas das pioneiras no ensino de arte floral é Stans Scheltinga, filha de holandeses, moradora de Holambra (SP) e dona de uma escola na cidade que já formou milhares de floristas. Ela trabalha na área desde anos 1970. Stans representou o Brasil, em junho, na Copa das Américas de Arte Floral, em Orlando (EUA), uma das competições mais importantes para o mercado mundial de flores.

Conforme a ABAF – Academia Brasileira de Artistas Florais - criada em 2014 e com sede em Holambra, o precursor da arte floral no país é Alfredo Tilli.

Este trabalho em arte floral é realmente incrível, imagine isso feito por voluntários nas ruas de Bruxelas?  O famoso tapete de begônias  é feito de dois em dois anos, desde 1971, a Grand Place de Bruxelas, na Bélgica, fica repleta de begônias coloridas.  Cerca de 1 milhão delas são reunidas por voluntários forrando uma área de 77m x 24m. O tema deste ano foi o México. 

 

 VOCÊ SABE ESCOLHER A FLOR CERTA?

Criada em 1999 por um grupo de produtores de Holambra (SP), a Cooperflora atende a mais de 70 produtores e responde por cerca de 5% do mercado nacional. Vem dela as sugestões abaixo, com a ressalva: são apenas dicas! É o gosto pessoal que deve prevalecer.

Você pode escolher pela ocasião...

Batizado ou novo bebê: hortênsia azul , spray emira, gerbera pacific, alstroemeria famke

Dia da sogra (28/4): angelica angélica, azaleia, copo de leite branco,

15 anos: antúrio rosa, cymbidium branco , gypsofila new amoré

Dia da Criança (12/10): gerbera deep purple, rainha margarida (de cores diversas)

Dia do professor (15/10): boca de leão vinho, lirio hyde park

Dia do homem (15/7): callas black berry, lírios, dekkorar grassly

Halloween (31/10): antúrio choco

Dia dos namorados (12/6) ou valentine's Day (14/2): lírio original love, callas romance, rosas

Natal:  cravo vermelho , hipericum vermelho, gérbera sarinnah

Aproveite esta dica para decorar à sua mesa na noite de Natal com todo o charme das flores...

Ou  faça sua escolha pelo tema para presentear aquela pessoa especial...

Amizade: callas gold cup , girassóis

Exótico: dalia veritable, protea cynaroide, Hortência botão verde

Glamour: flor de lótus nelumbo lilás

Retrô: hortênsia branca ou azul, copo de leite branco

OUTRAS DICAS

Além de seu formato delicado, as cores suaves e em tons pastéis garantem o ar romântico da hortênsia, escolha interessante para a decoração de casamentos e para o buquê.

A celósia ou “Crista de Galo” é considerada uma flor exótica e ideal para arranjos internos. A produção nacional é comercializada do meio ao fim do verão, até meados do outono.

Delicadeza e sofisticação estão associadas à lisianthus, uma flor originária das regiões desérticas dos EUA muito usada em casamentos. Além do roxo, lilás, rosa, verde e branco, há variedades mescladas, com várias flores e botões na mesma haste, compondo um visual assimétrico e volumoso.

As próteas são  resistentes, com flores exóticas, e vem da África do Sul. Vale para buquês, arranjos e até um vaso simples em algum lugar de destaque da casa.

 

O RECADO DE CADA COR 

  

SUPERPODERES DAS FLORES

Em variadas cores, a delicada prímula pode se dar bem dentro de nossas casas, em vasos ou jardineiras. Mas sua existência talvez seja mais conhecida de outra forma: como óleo, eficiente no alívio de sintomas da TPM, só para citar uma de suas indicações.

Quando pensamos em flores para além de suas finalidades ornamentais, a lista de benfeitorias é abrangente e potente: antioxidantes, ação expectorante e diurética, efeitos analgésicos e calmantes, propriedades antinflamatórias, antissépticas, adstringentes, estimulantes e antipiréticas, por aí vai. Usadas na produção desde cremes estéticos até compostos com fins curativos propriamente ditos, as flores estão a serviço da saúde também.

Como promotoras de bem-estar, chegam a níveis bem sutis, atuando em desequilíbrios emocionais: são os florais, com eficácia garantida, dizem especialistas. A prática é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

 A chamada medicina vibracional integra o currículo de formação do terapeuta floral, no curso vinculado à Associação dos Farmacêuticos do RS. “É o estudo dos campos que compõem nosso corpo e estão envolvidos nos processos de saúde-doença”, explica a especialista em florais Janaíne Martins, ministrante do curso. “Pense em chakras, corpos sutis e nos meridianos acessados pela acupuntura e terás uma ideia desses processos. Se refere ainda à influência das emoções sobre as energias que regem nosso organismo e a manutenção de seu equilíbrio ou o desenvolvimento de doenças”, completa a farmacêutica e homeopata, com 22 anos de atendimento em terapia floral.

Os florais passaram a ser conhecidos quando o médico inglês Edward Bach, nos anos 1930, fez a primeira sistematização dos Florais de Bach. Hoje, há dezenas espalhados pelo mundo. Além de os Florais de Bach (Inglaterra), podem ser citados os do Deserto (na Califórnia), os de Raff  (na Argentina) e Bush (na Austrália).

No Brasil, também há vários, com diferentes características, de acordo com as peculiaridades das regiões. “Podemos citar Filhas de Gaia (RJ), Minas (MG), Mãe Terra (SP), Mata Atlântica (MG), Vivessencias (RS), Florais do Sul (RS) e Saint Germain (SP), entre outros”, comenta Rogéria Comim, presidente da Artflor (Associação Riograndense de Terapeutas Florais) e do Conaflor (Conselho Nacional de Autorregulamentacao da Terapia Floral no Brasil).

Qualquer flor pode gerar um floral. A sensibilidade e o conhecimento do criador e pesquisador é que permitem a preparação de uma nova essência. A maior parte das essências florais é preparada a partir de flores silvestres, que crescem espontaneamente na natureza, ou a partir de jardins orgânicos, longe de agrotóxicos e outros produtos agressivos.

“Para a preparação da essência floral, são usadas flores no auge de sua floração, ou seja, no momento em que a expressão máxima de suas qualidades está disponível”, explica a farmacêutica Ana Maria Azevedo dos Santos, também especialista na área.

Cada sistema floral tem suas particularidades, mas em todos se identifica a continuidade do trabalho iniciado pelo Dr. Bach.

“As flores têm um campo eletromagnético, específico de cada espécie, capaz de ativar nossas virtudes latentes que, por algum motivo, estavam esquecidas, apagadas ou adormecidas. É como se a primavera chegasse após um inverno cinza, trazendo luz, esperança e cores de volta à nossa vida”, conclui a professora Janaíne.

 

ESTÃO SERVIDOS?

As flores comestíveis estão entre as PANCs, sigla para Plantas Alimentícias Não-Convencionais. As mais conhecidas são a capuchinha, o amor-perfeito, a cravina, o hibisco, entre outras. Com propriedades antioxidantes e vitaminas em abundância, especialmente a C, as PANCs são uma combinação de nutrição e beleza no prato quando as escolhidas são flores.

A capuchinha é aromática, em cores sortidas, variando entre o alaranjado, amarelo, vermelho, rosa e creme. Pode ser usada ao natural ou enfeitando e enriquecendo saladas, em parcerias deliciosas e refrescantes com legumes e folhas como rúcula, agrião e alface.

Porém, é preciso estar de olho na procedência de todas as Pancs, se certificando de que são para uso culinário. A dica é comprar em feiras orgânicas, direto com o produtor local.

Fonte: Juliana Noal, coordenadora dos cursos de gastronomia do SenacPOA

 Para a Ceia de Natal que tal uma Farofa de Hibisco para acompanhar?

RECEITA

Farofa de hibisco

1 xícara de hibisco picado
1 xícara de cenoura ralada
500 g de farinha de mandioca torrada
2 cebolas médias pequenas
3 dentes de alho
2-3 colheres de sopa de óleo
salsinha, cebolinha e sal a gosto

Modo de preparo:

Picar as cebolas, o alho e os temperos; aquecer o óleo e refogar a cebola com o alho, acrescentando a cenoura e o hibisco. Deixar no fogo, mexendo bem, até ficarem macios. Depois, acrescentar sal.  Adicionar a farinha de mandioca aos poucos, misturando bem. Por fim, o tempero verde, misturando bem. Rende de 8 a 10 porções.

Fonte: do livro Alimentos da Biodiversidade, Receitas com Pancs, Sitio Capororoca/POA.