Pelas ruas de Óbidos e Évora foi o fabuloso roteiro portugês que Beto Conte explorou na Revista Estilo Zaffari edição 83, que você ainda encontra à venda.

E uma de suas descobertas mais bacanas nesta viagem foi a da artista Josefa de Óbidos (1630-1684), uma mulher rara para seu tempo. Filha de mãe espanhola e pai português, Josefa nasceu em Sevilha, mas com quatro anos de idade os pais regressam a Portugal e vieram a se estabelecer na Quinta da Capeleira, em Óbidos.

Autorretrato

Influenciada pelo pai, o pintor português Baltazar Gomes Figueira, desde menina Josefa já manifestava vocação para a pintura e a gravura em metal, em um gênero denominado pontinho. Na pintura, se especializou em flores, frutas e objetos inanimados. Precisou se emancipar da obra do pai, visto que, frequentemente, os dois eram alvos de comparações, já que usavam os mesmo modelos e dividiam o mesmo atelier. A influência exercida pelo estilo barroco ampliou seus interesses e fez dela uma artista diversificada, tendo se dedicado também à estampa, à modelagem do barro, aos retábulos, a arranjos florais, à tapeçaria, aos azulejos, ao desenho de figurinos, de tecidos e de acessórios.

Josefa tinha a pintura como profissão. Considerada uma pintora barroca do século XVII, era conhecida por suas telas de composições equilibradas, com algo de dramatismo, que dominava a sua narrativa pictórica, principalmente em temas religiosos e naturezas mortas.

Natureza Morta com Doces e Flores

Aos 23 anos de idade, fez a gravura da edição Estatutos Universitário de 1653, da Universidade de Coimbra. Trata-se de gravura alegórica representando uma figura feminina, de Minerva, personificando a Sabedoria, com coroa real na cabeça sustentando sobre o joelho direito um livro aberto onde se lê a Insignia da Universidade. Na mão direita carrega um bastão elevado por pequena esfera armilar.

Estatuto de Coimbra

Em seguida, deu continuidade ao seu trabalho como pintora para diversos conventos e igrejas.

          Nossa Senhora das Dores com o Menino Jesus  - Capela do Noviciado do Convento de Varatojo 

Havia quadros seus nos mosteiros:

Mosteiro de Alcobaça 

             Mosteiro da Batalha

 Foi também retratista da Família Real Portuguesa. Destacam-se os retratos da rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia, esposa de D. Pedro II, e de sua filha, a princesa D. Isabel.

O Casamento Místico de Santa Catarina e O retábulo de Santa Maria de Óbidos são as obras mais conhecidas do seu vasto trabalho.

O Casamento Místico de Santa Catarina

O retábulo de Santa Maria de Óbidos

Hoje seus trabalhos podem ser vistos na Academia de Belas Artes de Lisboa e em sua maioria no Museu Nacional de Arte Antiga, também em Lisboa. Outro local onde seu trabalho pode ser apreciado é na Igreja da Senhora da Lapa, localizada ao lado do Mosteiro na Serra da Lapa, no Santuário Nossa Senhora da Lapa, na freguesia de Quintela, do Concelho de Sernancelhe.

No Museu do Louvre, em Paris, está uma de suas obras quase desconhecidas, Maria Madalena. Foi adquirida em um leilão em Nova Iorque, em 2015, e oferecida ao museu.

 

Maria Madalena

Nas obras religiosas podem-se ver os rostos ovalados, abonecados, com olhos enormes e bocas pequenas das figuras espirituais, que são uma originalidade de Josefa de Óbidos, e que distingue o barroco português do espanhol.

Em 2016, a obra Natureza Morta com Doces e Barros foi selecionada como uma das dez mais importantes obras artísticas de Portugal.

Natureza Morta com Doces e Barros

Observe que a pintora Josefa de Ayala Figueira adotou o nome de sua cidade para si, vindo a ser conhecida como Josefa de Óbidos Josefa de Óbidos foi a mais destacada artista da segunda metade do século XVII português, e uma dos poucos casos de mulheres que se destacaram na pintura em toda a história da arte universal da idade moderna.